
Quando eu conheci o entrevistado de hoje, não havia sequer rabiscos do BeatBass Hightec, projeto este que ele divide com seu parceiro de estrada Raphael Garcêz. Mas aquele cara com óculos estilosos e que fazia cestas de três pontos em trocas de beijos com garotas em nosso colégio já inspirava e transbordava arte. Figura ilustre, de conversa boa, aproxima e apaixona o seu interlocutor e ouvinte, seja numa conversa de boteco, ou nas potentes batidas ritmadas de seu excelente projeto. É com muito orgulho e honra que Kaentrenoz bateu esse papo com Pablo Duca:
Kaentrenoz - Como surgiu o Beatbass?
Pablo Duca- Eu e o Raphael Garcêz nos conhecíamos dos lugares comuns q a gente ia, shows, rolés nas ruas, skate. Começamos uma amizade legal pacas, por volta de 2004/2005. E o mais engraçado é q ficamos muito próximos por causa da música e para estudar pra um concurso público pra prefeitura do RJ, mas a gente não passou. Ainda bem!
Estamos aí a 5 anos fazendo oq a gente sabe, gosta e pretende fazer pra sempre: MÚSICA!
Kaentrenoz - Defina o som de vocês...
Pablo Duca- Cara, o som do BBHT é bizarro a gente achar uma parada q possa definir.. Sei q essa resposta pode soar um tanto qto clichê, tipo aqueles artistas grandes ".. eu não saberia explicar oq eu faço.." hehehehehe.. mas na real mesmo cara, a gente não se sente preso a nenhum estilo, de verdade mesmo.. o nosso conteúdo musical passa por vários alicerces da música mundial.. somos influenciados pelo funk 70
pelo soul, reggae/ragga/dancehall jamaicano, rock, hardcore, rap americano, afrobeat, sons regionais, toques de candomblé, tamborzão do funk carioca, música cubana.. acho q tudo isso e mais as referências ligadas (ou não) à música favorecem a nossa ida pro estúdio, fazer as bases, gravar, pesquisar oq vai ser sampleado.. Sem limites sempre.
Kaentrenoz - O rap nacional tem mostrado nos ultmos anos uma aproximação com o samba e vice-versa. E essa mistura está presente no som de vocês; O que você acha dessa mistura?
Pablo Duca - Normal! Culturas oriundas de origem negra tendem a se encontrar de forma muito natural, tendo em vista o aspecto artístico como base. Não acho que isso seja um problema, algo diferente ou qualquer coisa que o valha. Acho normal mesmo. Quer um exemplo? o Marcelo D2 fez um excelente disco em 1998, Eu Tiro é Onda e foi apontado como o primeiro registro de mistura de rap com samba. E não é!
O Pharcyde, um grupo de rap dos Estados Unidos registrou numa das músicas mais lindas feitas no rap mundial a canção Runnin -
que contém samples, se eu não me engano do Luís Bonfá, esse som foi produzido pelo finado J. Dilla, um gênio!
Esse disco é de 1995, Labcabincalifornia.
Lindo de se ouvir, uma aula de música. Sendo assim, vejo que essa mistura já se encontra por aí a muito tempo. O que chegou aqui no Brasil foi algo que aos olhos de muitos um boom, uma febre. Mas tem um valor histórico e artístico fenomenal. Samba e rap sempre estiveram muito próximos. Partideiros/ freestyleros, Mestre Sala/B.Boys, DJs/Ritmistas e por aí vai..
Kaentrenoz - Há quem torça o nariz para a música eletrônica dizendo que ela é menos interessante por ter como força motriz uma maquina, assim sendo, ela não é arte por não ser humana. O Que você acha disso?
Pablo Duca -Eu dou boas risadas sobre isso, sabia? Cara, me lembro uns tempos atrás falando que o rock estava perdendo força e que a música eletrônica ia imperar e tal.. Cadê o rock? Taí. A música eletrônica? TAí também. As pessoas esquecem que, por mais que a máquina registre timbres, loops, efeitos e faça correções, o fator HUMANO sempre vai ser o que vai ser o diferencial. Se o ProTools taí pra ajudar fazer excelentes registros musicais, maravilha. Que some bastante pra auxiliar na boa música. Acho que o bom senso ainda vai ser o eterno diferencial com HUMANOS e a máquina.
Kaentrenoz - Vejo entre os artistas de Rap, uma facilidade muito grande em criar alianças, parcerias. Com isso artistas acabam “crescendo juntos”. Como o Beatbass Hightec vê e faz essas alianças:
Pablo Duca - Isso é algo muito bacana de ser citado, legal mesmo você ter colocado essa questão. O universo da música faz com que o seu leque de amizades, de conhecimento se amplie a ponto de você não conseguir enxergar o quanto é grande a estrada e, com isso, naturalmente, pessoas vão entrando em sua vida, somando de uma forma ou de outra para que você siga nessa caminhada.
Pra gente que trabalha não só com o rap é lindo poder contar com amigos/artistas/parceiros pra colocar as suas idéias em prática.
Por exemplo, as músicas do Miami Bros a gente conta com amigos de mais de 18 anos. O João Xavi é amigo do Garcêz devido aos shows de hardcore. O PV10 eu conheci fazendo uma ação de hip hop no Colégio João XXIII, o Nossa Vitória são nossos amigos do hardcore, o Lelin é irmão desde 1995. Sendo assim, esse tipo de parceria nada mais é do que uma extensão do círculo de amizade que a música, o skate,
a rua te dá. Você só tem o prazer de celebrar isso.

Kaentrenoz - Os fãs de rap parecem não gostar de artistas que atingem objetivos comerciais os chamando de "vendidos". Na sua opinião o rap tem de ser underground?
Pablo Duca - Vamos lá.. underground é uma palavra que muitos gostam de utilizar de forma majestosa, carregam até no sotaque pra pronunciar. Mas vejo que é necessário um cuidado imenso a ponto de saber o que é ser vendido e o que é ser underground. Ou nenhum dos dois, sabe colé? Acho que o rap tem que ser encarado como música. Algumas pessoas que lidam com o gênero musical tem um certo preconceito com elas
mesmas diante da premissa que a parada é música. Sei que já tiveram artistas que já citaram em suas músicas que fazem rap. Mas o que eu to dizendo é o seguinte: muitos colocam o rap fora do contexto música, sabe como? Rap underground e rap comercial são coisas diferentes, no quesito mercado, business e tal. Mas como eu vou deixar de observar que o Racionais é popular?
To desde 1900 e bolinha querendo uma explicação pra isso. Como eu não vou olhar o Mano Brown e encará-lo como um fenômeno popular?
Ver as canções que o finado Sabotagem fez não podem ser assobiadas quando se vai pro trabalho? Ouvir a canção Equilíbrio, do Kamau e não fechar os olhos ao cantar o refrão?
Sabe, esse ranço de "fulano se vendeu, ta usando roupa de marca, Nextel, etc, etc, etc.." tem que ser deixado de lado o quanto antes e quando se tratar de negócios nunca ter medo de encará-lo de frente e saber fazer uma parada que tu acredita.
Kaentrenoz - E essa popularidade ajuda ou atrapalha na hora da composição?
Pablo Duca - Depende da maneira que você encara essa sua popularidade... por exemplo, o Marechal nunca lançou um disco, ta a mais de10 anos fazendo única e exclusivamente música rap. Vai ver o que o cara ta fazendo com o mercado nacional de rap? Só nome de peso trampando com o cara.. Ele já gravou com o Carlos Dafé, fez som com o Marcelo D2, Leandro Sapucahy e nunca deixou de fazer boa música, boas letras
ter carisma.
Agora, tem casos de "popular" que passam batidos.. Alguém sabe por onde anda o Vini Max do neurótico e frenético?
Kaentrenoz - Rap no Brasil sempre está relacionado a letras que fala de resistência, de um cotidiano de lutas entre um sistema opressor, já lá fora, podemos observar que o propósito é muito mais comercial, muito mais comprometido com a dança e o hit. Os precursores do estilo perderam o caminho?
Pablo Duca - Não, muito pelo contrário. Acredito que lá fora o mercado é muito mais amplo. Os caras inventaram a parada, eles são os "donos" da festa, vamos assim dizer.. Mas acho que muitos adoram celebrar de uma maneira grandiosa. Eu não preciso ver o Lil Wayne com uma mala cheia de dólares, não preciso ver o DJ do 50 Cent falando que o Brasil tem aids, mulheres e sexo. Não mesmo!
Me sinto muito mais a vontade com a forma que o Jay Z trampa, as canções do A Tribe Called Quest, Mos Def, The Roots..
Mas entendam, em momento algum quero desmerecer esses artistas que se entupiram de champagne, gostosas em suas camas, carros, lustres de 800 mil dólares. Só acho que são propostas diferentes. Cada um no seu quadrado.
Kaentrenoz - Quanto ao futuro, como vai ser o futuro do BBHT
Pablo Duca - A luz será o futuro. Luz na caminhada, luz nas idéias, nos timbres.. O BBHT ta fazendo um disco. Achamos que tava na hora de registrar a nossa parada porque, com o passar dos anos, produzimos, gravando, mixamos outros artistas e quando paramos pra pensar vimos que não tínhamos feito nada nosso. Portanto, a gente começou a gravar lá em casa mesmo, com os recursos que temos
de computador, pre amp, discos de vinil pra samplear, microfones, plugins e idéias.
Teremos a participação de vários amigos no disco e estamos fazendo a primeira do disco. Depois dela, o ritmo das gravações seguem normalmente, de acordo com o nosso tempo.
A idéia é fazer um disco com mais ou menos 12 faixas reunindo aquilo que a gente gosta de ouvir.
Mas, dentro do nosso tempo também, iremos continuar a gravar os artistas que achamos legais, que tem idéias bacanas a serem colocadas para o mundo. As discotecas (que palavra ótima!) rolam às vezes, porque é algo que nem sempre rola com frequência. Mas sempre que possível, estamos lá colocando geral pra remexer o quadril. Vamo que vamo!
Kaentrenoz - Partamnos para uma suposição se este fosse o blog mais lido do mundo, existissem várias pessoas lendo essa entrevista agora, qual mensagem Pablo Duca do BBHT gostaria de deixar para o mundo?
Pablo Duca - Cara, vamos pensar da seguinte forma: o blog será lido por quantas pessoas? 6,10, 27 pessoas? Não importa. São só números. O que importa mesmo é a mensagem que vai ser captada. COm isso, queria deixar aqui umas palavras... Música é música sempre. Não importa se é a música do Calypso, do Sick of it All, Air, Fela Kuti, Paralamas..
Acredito que na melodia, as possibilidades de fazer música serão um importante registro de sua vida s, tendo em vista o prazer de se ouvir o artista, saber sobre ele, comprar disco, baixar músicas. Música sempre estará presente em nossos corações. Faça com música o seu melhor caminho de luz, busque o caminho menos percorrido.
Abraços, boas vibrações, luz na caminhada e música sempre
www.fotolog.com/bbhightech
www.myspace.com/beatbasshightech
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