sexta-feira, 25 de março de 2011

Fim de monólogo

Sentou-se no meio fio. 
Ainda havia um pouco de whisky na garrafa e ele iria tomar assim, cowboy. Porque não haveria gelo suficiente para refrescar as memórias daquela noite. Olhava pros caras fechando o Botequim. “Vida de merda desses caras,  mas ainda assim melhor do que a minha”, pensava.  Em outros tempos ia ser muito difícil, imaginar a cena dele assim: totalmente solitário.  Atrás daquele cavanhaque mal feito, atrás daquelas vestes mal construídas havia outrora, um verdadeiro rei da boemia e da malandragem. E um rei que construíra o maior dos reinados.
Não havia uma festa em que ele não entrasse. Não houvera uma boca que ele desejasse que seus lábios não invadissem. E quantas vezes foram às bocas que clamaram por essa invasão.
E quantas, e quantas vezes foram às festas que lhe deram boas vindas.
Amigos? Pra quê?  Ele se perguntava. Ele queria contatos. “N-E-T-W-O-R-K-I-N-G V-I-P” ele dizia. Rede de relacionamentos que o colocavam em primeiro lugar nas pesquisas do Ibope soberbo e desastrado das altas classes. Fazia de sua vida um constante espetáculo. Espetáculo onde todos os outros eram sempre coadjuvantes do grande e imponente astro que ele acreditava ser. E era mesmo.
Só que até o sol, astro na origem da palavra, faz questão de por um momento se curvar diante da beleza e magnitude da lua. E divide com ela de forma romântica e apaixonada um sensual e hipnotizante eclipse.
 Mas ele não, e nos momentos de dividir para somar, nos momentos de apequenar-se para engradecer, fugiu. Escondeu-se com medo da mais corriqueira tarefa dos grandes e suntuosos meios de merda em que se metia: a comparação. Medo.  Ironicamente ele, que ao reflexo do espelho se sentia um semideus se via agora diante de um sentimento tão normal. De algo tão humano.
Aí os próximos passos, iriam correm marcados. Como num velho tango argentino. Não havia mais festas. Não havia mais mulheres. Amigos e família? Esses nunca existiram. Então foi caindo. Num precipício que sem se dar conta havia ele mesmo criado.
Mais dois goles de whisky. O Sol começava a surgir no meio daquelas ruas. Dois mendigos ao verem ali, jogado, o analisam calmamente. Aproximam-se e imprudentemente dizem:
“Essa garrafa, aí companheiro. Dá um gole?”
“Vão  a merda.”
Os caras proferem 05 ou 06 palavrões e ele gargalha sarcasticamente enquanto eles vão embora.
.“Vida de merda desses caras, mais ainda sim melhor do que a minha”. Pensou ele antes de pegar 04 chumbinhos dentro de uma porca caixa de fósforos e fazer correr a maldita cortina vermelha daquele espetáculo que ele  escreveu, produziu, dirigiu e encenou.
No teatro da vida é assim: todo monólogo acaba em drama.

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