Melhor assim.
Ela passou ao lado dele mais uma vez. Ela um “bom dia”que preenchia a alma. Ele um sorriso maltrapilho encontrado facilmente nos palhaços de filme preto e branco (eles ainda existem?)
E enquanto ela iria se preocupar com academia-trabalho-happy hour-chega-logo-sexta-feira, ele ia lá suspirando internamente, mergulhando em um universo paralelo de “e se por acaso”. Sabia porém que o acaso não era um vento que jogava a favor. Sabia ele que o tal “azar no jogo” nunca o repunha com “sorte no amor”. E o tempo havia o preparado a se acostumar a derrota. Melhor assim.
Ele se sentia sozinho, em qualquer multidão. Era um daqueles que moram em pequenos metros quadrados, com diversos livros pela estante. Com anotações pregadas na geladeira na insana necessidade de não se dar ao luxo do erro. Um zero ao meio. Pois bem provável que nem direita ou esquerda o quisesse. Melhor assim.
Ela, uma verdadeira garota do comercial de cerveja. Formas exuberante, cabelos loiros compridos, olhos verdes. E todas os outros atributoscapazes de fazer um cara como ele (ou tal como for) passar dias sonhando. Com extrema facilidade era roubava a cena da obra, da borracharia, do material de construção e até mesmo da mesa de velhinhos jogando dominó.
Um bom emprego, amigos para o happy hour. Para a sexta também. Para a balada de sábado idem. Para o “bota fora de fim de semana” mais ainda. Mas lá dentro, escondido em algum canto, havia uma menina frágil. Se sentindo culpada, sozinha. Sentindo que suas relações parecem ter o mesmo peso e duração dos comerciais já citados. Achava que o mundo jamais iria conseguir entender suas fragilidades, seus momentos de dor e de medo. E que todos só se limitavam a olhar o seu exterior pesado, acelerado e urbano. Quando o que havia lá dentro era um doce e florido jardim bucólico. Mas, enquanto pensa se arruma e vai para outra festa “beber para esquecer”. Melhor assim.
E os dois, arquétipos solitários de um mundo cada vez mais idiossincrático e solitário, escrevem suas historias sonhando com dias melhores ao invés de irem realmente atras do que querem. Perdendo a chance de dar tudo certo e, porque não dizer, de tudo dar errado também. Pois só quando as coisas não saem como esperamos aprendemos a reavaliar o que queremos. No mais é conformismo, é perda de tempo, é otimismo barato e burro. É se conformar com a metade, com o pouco, com o quase nada.
É passar a vida inteira esperando.
Amanhã vão se cruzar novamente. E vão dentro de seus interiores vazios de amor e senti m, se entreolharem e pensarem num mesmo silencioso tom : "melhor assim”.
E eu me pergunto: Melhor pra quem?
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