quinta-feira, 28 de maio de 2009

Psicologia de praça.

Psicologia de praça.

Ou como contar sua vida inteira pra alguém durante a hora do seu almoço.

Meus dias, normalmente, começam e terminam da mesma forma. Saio sempre atrasado de casa, por nunca conseguir desenvolver uma conversa amistosa com meu despertador. Ao chegar a meu batente, aproveito as primeiras horas do dia para fazer todas as obrigações que deveria fazer durante o dia inteiro (eu rendo melhor na parte da manhã). Almoço num restaurante bem próximo ao trabalho, pois a hora de almoço é curta. Curta, porém libertária. O prazer da comida self-service nos possibilita a maior ambição do homem: a escolha. O homem em todos os seus afazeres almeja escolher. Quer escolher uma carreira, depois quer escolher o que fazer dentro da carreira. Quer uma companheira, porém quer escolher a forma como essa companheira deve ser. Escolhe sua roupa, seu time de futebol, sua religião. Hoje em dia dá pra escolher até mesmo o seu Deus, pois tem vários deles por aí. O homem é assim, ambiciona o poder de escolher. A mulher não. A mulher nasce escolhendo. Sempre é ouvida na hora de qualquer coisa. A mulher passa a vida inteira escolhendo, mas nunca fica satisfeita com aquilo que escolhe. Ela sempre vai pensar em como teria sido se tivesse escolhido a porta número dois ao invés da porta de número 1. O homem também não se satisfaz com suas escolhas. Porém jamais irá dar o braço a torcer. Mulher como é mais adepta a transparência normalmente estampa sua caras de decepcionada, em rótulos garrafais de descontentamento.
Filosofia a parte, logo após a prazerosa tarefa da escolha, vou todos os meus dias a mesma praça. Uma praça que fica situada próxima ao restaurante que como. Acompanhado de meus cigarros, e de algum livro. Ao chegar lá me deparo com diversos companheiros da mesma jornada. Trabalhadores das mais variadas classes e obrigações, que passam comigo as suas também curtas porém prazerosas horas de almoço.
Ao chegar à praça sempre me deparo com essa mesma situação. Lá é o santuário mágico do desabafo daquelas pessoas. Eu sou o único que sempre vai e permanece sozinho para lá. Digo isso, por que essa praça nesse horário é tomada por uma senhora do alto de seus 70 e poucos anos que serve como um guru espiritual da praça. Um oráculo dos tempos contemporâneos que sempre pontua seus ensinamentos e parábolas com um suave “ta entendendo meu filho?”. Um dia desses, lá estava ela, ouvindo atenciosamente um relato de uma menina de seus 24 anos que trabalha numa farmácia perto do local aonde eu pego minha condução diária. O papo seguia dessa forma.
“Aí é sempre assim, ele me liga Dona Eulália, eu me encontro com ele em algum lugar, e quando vejo lá estou em um motel barato de estrada, fazendo com ele o que ele bem quer... Depois ele me deixa a pé, e volta em seu carro de banho tomado para os braços da esposa”
Dona Eulália sem esconder sua cara de desapontamento, porém um desapontamento retraído perante o tamanho desespero de sua “paciente” decide ajudar:
“Minha filha, se acalme. Enquanto houver terra fértil, ele continuará a colher os frutos sem se preocupar em irrigar, está entendendo minha filha? Agora para de dar frutos (o fruto, ou a fruta provavelmente ela quis dizer) pra ver se ele num arruma um jeito de fazer chover nessa terra.”
A moça abriu um sorriso. Dona Eulália, a oráculo mais famosa de nossa praça resolvera o problema mais uma vez.
“É isso mesmo, não o procuro mais?”
E dona Eulália com uma cara de detetive que elucida o crime diante de toda a família no último take do filme confirma
“Só quando perdemos, aprendemos o real valor”
E eu lá tentando entender por que pessoas como a farmacêutica perfídia não descobrem que a soluções de seus problemas são claras, porém ouvi-las de outra pessoa é sempre melhor do que de nossa própria consciência.
Considerei esse meu pensamento negativista demais. E resolvi que no próximo dia que a oráculo estivesse com tempo de atendimento vago, iria lá me consultar com a mesma.
Aproveitando uma tarde de sexta, onde o número de colegas de praça diminui consideravelmente, fator que atribuo à condição de que, tudo que existe para dar errado no trabalho acontecerá numa sexta –feira, para obrigar-nos a temer a tão monstruosa ida ao emprego no fim de semana.
Aproximei-me de dona Eulália, que vestia seu costumeiro traje. Blusa de pijama rosa, bermuda leve de seda e um par de chinelos branco. Acompanhado de um par de óculos antediluviano e de um livro da Clarice Lispector que desde que a conheço é levado a praça, sem ao menos ser folheado uma folha.
Ao chegar perto, ela já solta uma de suas pérolas oraculianas.
“Achei que nunca iria falar comigo, você é sempre tão calado. Tão misterioso.”
Sorri. Nesse momento, me senti o próprio Neo da Matrix ao atravessar a porta daquele apartamento.
“É isso, Dona Eulália. Sinto-me sempre sozinho, por mais que estou acompanhado. Tem sempre uma amargura rodeando meu peito. Um vazio inexplicável. Não tenho um relacionamento digno há tempos. Apenas desventuras românticas dignas de um calhorda boêmio da época do Moulin Rouge. O que faço para descobrir alguém que me quer ao lado?
E foi aí que me desapontei com o oráculo de nossa praça. Ao terminar ela estava de olhos fechados, em um sono que parecia estar guardado há séculos. Confesso que ouvi um ligeiro roncar saindo quando levantei do banco.
Foi aí que outro personagem da praça se apresentou
“Ei, moço do “moulin do alguma coisa”
Era Joaquim, jardineiro da prefeitura. Que costumeiramente irriga o jardim durante seus almoços.
“Oi, Joaquim, pode falar”
“Cê tá precisando de muié?”
“Sim, a coisa ta preta, Joaquim”
“Então, acabou de abrir uma zona lá na estrada perto de casa, saindo da cidade, se o senhor quiser ir eu mostro pro senhor...”
Sorri.
E nesse momento descobri que o self-service indicado pelo Joaquim, seria o sinal de desapontamento eterno que carrego em meus dias.
Abraços.

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