sexta-feira, 10 de julho de 2009

A garota do 515,







Quando o caminho a ser seguido é o que seguimos todos os dias,




Confesso, sou um amante da dor. Gosto do “glamour” tristonho que essa traz consigo. Essa áurea poética e lírica do apartamento escuro, a luz somente do monitor e o som das teclas percorrendo a madrugada. Gosto do eterno drama contido dentro de um filme PB do anos 30, onde o protagonista comete suicídio por não ter a sua pretende, esta que nem sabia do amor deste. Meu primeiro autor preferido foi Dostoievski, o segundo Machado de Assis. Nunca gostei das poesias alegres e por isso leio Augusto dos Anjos, as angustiantes de Drummond e a tristeza quebrada e rítmica de Leminski. E essa solidão incessante que rasga a minha pele durante a madrugada fria está comigo, ininterruptamente.

E por esse amor a solidão, a dor e ao sofrimento me faz apegar a todas as coisas que jamais vou ter. Meus olhos sempre se fixam a olhos que jamais me enxergarão, minha atenção se volta a sabores que nunca irei experimentar, a corpos que nunca serão meus, a sorrisos e olhares que jamais serão destinados a mim.

E assim foi por meses neste ano. Tranquei-me numa cela escura, pretendi uma caminhada que me traria dor e sofrimento. E não pense que foi somente por esta cegueira insólita, quando tentava escapar, me prendiam ainda mais. Perpetuando assim um ciclo de um falso amor que não parecia cessar. Confesso –lhes que para me desligar foi como se um órgão tivesse que ser extraído, em praça pública sem anestesia. Mas por deus assim foi feito. E a recuperação deste coração impaciente e ousado, corria tranqüila, e mais, havia ainda um trato com este andarilho quixotesco: Nunca mais procurar ninguém, nunca mais ousar pensar em alguém. Queria me tornar um daqueles seres que sempre repudiei: verdadeiros caçadores do prazer sexual. Seres que só tem amor pelo seu próprio corpo na frente do espelho. Ser vazio neste mundo cinza se não é legal, ao menos é leve.

Mas aí ela surgiu. Uma linda mulher. Morena, dos cabelos castanhos, de olhar poético e simples. Dotada de um sorriso que parece simplificar todos problemas. Se estivéssemos no século 19 ousaria jurar de pé junto que ela seria um personagem do Machado de Assis ganhando vida. Uma beleza real, pura constante e simples. Nada pré-fabricado. Ela parece poder mudar meu mundo em um segundo. Ela parece ter o poder de me fazer sair dessa tristeza: até porque eu duvido que ousaria cair uma lágrima se estivesse ao seu lado. Ela é poesia, ela é prosa. Ela tem em si a cruel vicissitude do sexo. Mas ela é a pura leveza do amor. Ela é lágrima e é sorriso. Ela é o meu sonho mais real, pelo simples fato de ser um sonho vivo.

Ela sem dúvidas é tudo aquilo que preciso.
E onde ela estava?

No mesmo ônibus que eu, no mesmo percurso. Todos os dias. Ao meu lado.
Neste momento reparo que não é preciso inovação, é preciso percepção.

Quantos momentos eu já poderia ter vivido?
Quanto tempo ainda há pra viver?
Quanta dor vivida em vão?
Quanto inverno, ao invés de verão?

Dúvidas e contradição.

Quando ela ler, provavelmente vou estar na mesma cela. Ouvindo o anjo da Joss Stone repercutir por minha casa para quem sabe tentar diminuir minha tristeza.
Amanhã é fim de semana e ela não estará lá.
O que me resta, é esperar ansiosamente, a segunda-feira chegar.
E ela há de chegar,

Ou se há!

Um comentário:

  1. Perfeito!!!

    Não sei se isso tudo realmente é verdade, mas só um ser tão evoluído pra captar coisas tão essênciais....

    e o melhor, eu pude descobrir que eu não estava me enganando ou me deixando levar por pensamentos imaginários, o que aconteceu ali foi verdadeiro e recíproco!!

    ;*** Thi

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